O hábito e a fé

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"O hábito faz o monge" — dizem eles, com a mesma certeza com que afirmam que um jaleco branco faz o médico ou que um capacete transforma qualquer um em engenheiro.

É curioso, no mínimo. Se vestir um hábito transforma um homem em monge, então bastará frequentar a igreja para alguém se tornar cristão? Ora, por essa lógica, bastaria ir ao estádio para ser jogador, visitar uma biblioteca para ser escritor ou entrar numa cozinha para se tornar chef. E, no entanto, quem já comeu os meus bifes sabe que essa teoria tem falhas graves.

A senhora da primeira fila, que nunca perde uma missa, nem que chovam picaretas, passa os dias a rezar pelos pecados alheios — sempre os alheios — enquanto martiriza a nora e vigia o vizinho com a mesma devoção com que beija o terço. Mas é cristã, claro está. Tem lugar cativo na igreja, que é quase o mesmo que ter morada no Céu.

E aquele senhor que grita com os filhos, engana a esposa e sonega impostos, mas nunca falha a procissão — é exemplo vivo da fé. Com certeza, Deus deve levar isso em conta. Afinal, há penitência maior do que andar duas horas sob sol abrasador com uma vela na mão e cara de santo?

No fundo, é confortável acreditar que o hábito faz o monge. Liberta-nos da responsabilidade de ser, bastando parecer. Porque transformar o coração dá trabalho, mas vestir o disfarce certo é só uma questão de estilo.

E estilo, ao contrário da fé, compra-se em qualquer loja.

 

Imagem: Pixabay

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