O espelho das falhas

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Há uma frase que circula por aí com ares de sabedoria antiga: “Muitas das falhas que vês nos outros são os teus próprios defeitos refletidos neles.” À primeira vista, parece uma daquelas máximas moralistas que servem para calar discussões. Mas olhemos com mais atenção — ou melhor, olhemos com mais honestidade.

É surpreendente como certos comportamentos que tanto nos incomodam nos outros são precisamente os que praticamos com mais frequência, embora com roupagens mais nobres. Reprovamos a arrogância alheia, mas chamamos à nossa “confiança”; criticamos a preguiça do vizinho, mas chamamos ao nosso repouso merecido; apontamos o dedo à vaidade dos outros enquanto ajustamos pela terceira vez o colarinho ao espelho. Chamamos defeito quando é o outro a fazer. Virtude, quando somos nós.

É que olhar para os outros é fácil. Difícil é reconhecer que talvez — só talvez — aquilo que vemos neles é um reflexo incómodo do que nos recusamos a admitir em nós próprios. A crítica torna-se então uma forma de projeção: apontamos para fora porque não suportamos ver por dentro.

Não se trata de dizer que todos os juízos são inválidos ou que devemos viver num estado de complacência generalizada. Mas convém, antes de atirar a pedra, perguntar: “Será que esta pedra me pertence?”

Num tempo em que a crítica alheia se faz em tempo real e com megafone digital, talvez fosse útil um pouco mais de introspeção e um pouco menos de julgamento. Afinal, o espelho não mente. Mas nós, frequentemente, mentimos para ele.

E com convicção.

 

Imagem: Pixabay

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