
Dizem os russos, com aquela solenidade melancólica que só eles dominam, que em Moscovo há demasiadas janelas. À primeira vista, a frase parece saída de um manual de arquitetura soviética, talvez um lamento urbano pela falta de cortinas ou pela corrente de ar que entra pelas frestas do Kremlin. Mas não. A janela em Moscovo tem outra função, muito mais patriótica: é um elevador vertiginoso para o além.
De cada vez que um oligarca repensa os seus investimentos no exterior, um ministro questiona a linha oficial, ou um jornalista tropeça na verdade, uma janela abre-se misteriosamente no décimo andar — e o cidadão, subitamente acometido por um súbito amor pelo voo livre, decide testar a lei da gravidade com a cabeça.
Os especialistas chamam-lhe "suicídio espontâneo assistido pela arquitetura". A medicina, desconcertada, regista hematomas nas costas e ligaduras nas mãos, mas atribui a causa da morte sempre ao mesmo: um salto voluntário. A estatística, abnegada, vai empilhando corpos e ignorando padrões, como quem não vê o vidro estilhaçado à volta da democracia.
Talvez o problema não seja de Moscovo, mas das janelas. Demasiadas. Demasiado altas. Demasiado disponíveis. Há quem diga que deviam ser substituídas por murais com citações inspiradoras de Putin ou por retratos de Estaline em pose maternal. Outros sugerem sensores de proximidade, que toquem o hino nacional sempre que alguém se aproxima do parapeito com expressão filosófica.
Mas, enquanto se discute, a janela está lá: aberta, limpa, convidativa. Em Moscovo, a gravidade não é uma lei — é uma política de Estado.
Imagem: Pixabay
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