
"A forma mais estúpida — e talvez mais perigosa — de tomar decisões é confiá-las a quem nunca pagará o preço do erro."
Em Portugal, temos o hábito de entregar o destino comum a quem se esconde atrás de cargos, relatórios e palavras redondas. Quando o elevador da Glória descarrilou, não foi apenas o ferro que se desprendeu dos trilhos — foi também a confiança de um povo habituado a ver a responsabilidade dissolver-se em comunicados e promessas de inquéritos “a decorrer”.
Quantos decidiram, quantos sabiam, quantos nada fizeram — e quantos, no fim, continuarão a decidir sobre nós sem nunca sujar as mãos? A tragédia expõe o que fingimos não ver: há em Portugal uma cultura de imunidade moral, onde os erros não custam a quem os comete, mas a quem apanha os estilhaços.
E nós, que viajamos de boa-fé naquele elevador, continuamos a acreditar que o problema é o ferro velho — quando talvez o verdadeiro perigo esteja na alma enferrujada de quem decide sem pagar o preço.
Imagem: Pixabay
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