
É curioso como os inimigos, esses vultos de contrariedade, acabam por ser mais fiéis do que os amigos. Enquanto os amigos se distraem com os próprios dilemas, enquanto o amor dormita, enquanto a família se ocupa do telejornal ou do jogo de futebol, o inimigo vela. Vela por ti. Vela contra ti, é certo, mas vela.
O ódio é um vínculo tão visceral quanto o amor — às vezes mais. Um amigo pode esquecer o teu aniversário, mas o inimigo lembra-se até do dia em que usaste aquela camisa ridícula. Estuda os teus passos com a meticulosidade de um relojoeiro, analisa os teus gestos como um crítico de arte mal-humorado. E se tu caíres? Então serás motivo de brinde, celebração, talvez até de uma publicação passivo-agressiva nas redes sociais.
Eles desejam que fracasses com a fé fervorosa de um crente. Alimentam-se da tua existência como um parasita sofisticado, não para te sugar, mas para te vigiar. E tu, vaidosamente, pensas que estás sozinho. Tolice. Nunca estiveste tão acompanhado. O ódio dos outros é uma forma de reconhecimento; distorcido, sim, mas ainda assim uma homenagem. Quem te odeia não te esquece. Quem te inveja quer ser tu com melhorias. Os inimigos são admiradores com frustração crónica.
Por isso, ama-os. Não com ternura — seria um desperdício. Ama-os com o desprezo elegante de quem reconhece o esforço que fazem para te derrubar e, mesmo assim, caminha. Ama-os porque, no fundo, são teus dependentes emocionais. Porque te fazem relevante. Porque, mesmo contra a vontade, ajudam-te a manter o passo firme, a postura altiva, o olhar atento. Sem eles, talvez te acomodasses. Talvez te tornasses invisível.
O inimigo não é senão um espelho torto. Rir-se dele é rir-se de si, em negativo. Mas desprezá-lo com classe é arte. E amar um inimigo — esse amor que nasce da consciência da sua obsessão — é a mais refinada das vinganças.
Quem é mais livre: tu, que segues em frente, ou ele, que te segue a ti?
Imagem: Pixabay
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