Bebés Reborn A paternidade de plástico

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Vivemos tempos realmente fascinantes. Enquanto uns se preocupam com as alterações climáticas ou o custo dos legumes, há quem tenha descoberto a verdadeira vocação da vida adulta: ser pai ou mãe de um boneco. Não, não é metáfora — é mesmo literal. Refiro-me à febre dos bebés reborn, essas esculturas de vinil com olhos vítreos e expressão de prisão de ventre permanente, que são tratadas com mais zelo do que muitas crianças reais.

Há quem defenda que os bebés reborn ajudam a lidar com traumas ou lutos. Sem dúvida, há contextos sensíveis em que estas bonecas têm um papel terapêutico. Mas o que se vê, na maioria dos casos, está longe da terapia e mais próximo da performance emocional. Há um mercado inteiro alimentado por este fetiche de maternidade estética, onde cada carrinho de luxo é uma afirmação de status e cada “filho” de borracha é um símbolo de pertença a um clube de empatia fabricada.

O fenómeno é tão sofisticado que já não se limita a sessões fotográficas no sofá com filtros de maternidade. Há quem leve estas “crianças” de plástico ao hospital. Sim, ao hospital. Unidade de saúde pública. Para consultas. E o mais extraordinário é que há profissionais a terem de manter a compostura enquanto alguém pergunta se o reborn pode ter intolerância à lactose.

O que se passa com esta gente? Falta de companhia? Solidão? Terapia mal orientada? Ou apenas uma necessidade descontrolada de protagonismo com aplausos de emojis? Há quem diga que é uma forma de preencher o vazio — mas por essa lógica, há quem preencha o vazio com vinho, outros com crochê, e nem por isso andam a tentar matricular um naperon no infantário.

O mais triste é que, enquanto se embalam bonecos com roupinhas de marca, há bebés reais em instituições, hospitais pediátricos com falta de recursos, e mães sozinhas a lutar por apoios mínimos. Mas claro, o reborn é mais fácil. Não chora (a não ser se tiver pilhas), não vomita, e nunca diz "não".

A maternidade de plástico pode parecer inofensiva. Mas num mundo que precisa urgentemente de laços autênticos, ela representa uma rendição silenciosa à fantasia do afeto sem esforço. E, nesse jogo de faz de conta, a verdadeira infância fica, mais uma vez, esquecida.

 

Imagem: JN

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